QUEM DEVE INDICAR O MATERIAL IMPLANTADO EM UMA CIRURGIA?

O Cirurgião pode ou não escolher o material com o qual ele opera?

 Apesar de ter sido determinado no ano passado, somente recentemente começamos a ter problemas com a escolha do material que utilizamos para operar nossos pacientes. Isso porque agora, o Conselho Federal de Medicina determina que, ao solicitar um material implantável cirurgicamente para seus pacientes, o médico não pode mais indicar a marca preferida e ofereça 3 opções de fabricante aos Hospitais e Convênios. 

Médicos devem seguir determinações das entidades de classe.

Essa determinação parte pelo presuposto de que os médicos, ao optar por utilizar exclusivamente um produto, podem estar  recebendo benefícios do seu fabricante. Essa atitude, por sua vez, poderia prejudicar os pacientes, levando à utilização de material mais caro ou mais barato, dependendo da situação.

Será que essa situação existe realmente? E se existe, seria ela tão generalizada a ponto de ser necessário obrigar todos os médicos a seguirem essa nova determinação? Por causa de um ou outro todos têm que ser punidos?

Minha opinião é contrária. Eu acredito que uma parcela ínfima dos médicos é que se deixa levar pelo logro infeliz de mudar o seu ato cirúrgico em troca de uns trocados a mais ou outros benefícios pagos pelos fabricantes de materiais médicos. Supor que essa situação seja geral e punir toda a classe médica e pacientes com essa determinação é, em minha opinião, abster-se de realizar a função maior que é a de disseminação da Ética Médica e a busca frequente por melhores condições de trabalho e remuneração ao médico.

Explico! Os órgão reguladores, CFM, ANS e ANVISA,  poderiam concentrar-se em encontrar aqueles poucos profissionais que não têm a Ética como valor maior. Deveriam puní-los, claro, na medida correta e justa, mas também poderiam tentar entender os seus motivos, para realizar ações de prevenção. Além disso, é preciso encontrar os fabricantes que agem sobre o médico, para atingir seus interesses comerciais e puní-los, pois deveriam apenas fazer a divulgação do seu produto, através de marketing ético em saúde. Mais ainda, os órgãos reguladores poderiam concentrar-se mais na fiscalização dos produtos liberados para serem vendidos aos Hospitais e Planos de Saúde, garantindo a eles qualidade mínima e segurança total para os pacientes. Fato que não ocorre na verdade.

Finalmente, em minha opinião, essa decisão mais fere do que protege os pacientes. O ato cirúrgico, para os bons cirurgiões, é quase um ritual. É uma arte. É um trabalho que depende de talento e de detalhes. Alguns cirurgiões não utilizam os instrumentais dos hospitais e adquirem sua própria caixa de instrumentos cirúrgicos porque sabem que uma tesoura, uma pinça assim como um material implantável pode fazer a diferença entre um ato operatório perfeito e um apenas razoável. Todos nós sabemos que a qualidade da cirurgia depende das mãos de quem opera, mas mesmo as melhores mãos, com instrumentos ruins, perdem qualidade. Peça a um jogador de tênis para dar três opções de raquete em cada partida. Peça a um jogador de futebol para dar três opções de chuteira ao dono do seu time. Peça a um pianista para dar três opções de piano para o show. Qual deles aceitará? O profissional opera melhor, seja qual for o procedimento, quando todos os instrumentos lhe são familiares e confortáveis. Os materiais utilizados na cirurgia não escapam disso. Se os materiais implantáveis fossem idênticos em forma, acessórios e principalmente qualidade,  talvez a cirurgia não sofresse interferência. O problema é que os materiais são diferentes, os acessórios são diferentes. Cada fabricante patenteia uma alteração para utilizá-la como diferencial em marketing. E o médico, se quiser usar “qualquer um” tem que fazer um treinamento com todos e se não, tem que entrar em uma “guerra” com hospitais e convênios para poder ter à sua disposição o material que lhe é mais confortável. Na minha área não existem 3 tipos de materiais iguais, que permitam a escolha. Seria necessário realizar cirurgias com materiais que não conhecemos, sob a supervisão de um técnico ou médico que não conhecemos para então podermos adquirir habilidade com todos os materiais e assim, poder escolher entre três. Nenhum artista precisa disso. Ninguém tem tempo para isso. O mais importante é a hora do ato cirúrgico. Quem opera sabe. Quem não opera inventa leis como essa. Porque ? Seria pelo fato de que a maioria dos médicos não liga para a qualidade da cirurgia que faz? Ou existiria outro motivo? O fato é que essa é mais uma dificuldade acrescentada ao nosso já difícil trabalho médico.

Carlos Alberto Bezerra

 

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Uma resposta para QUEM DEVE INDICAR O MATERIAL IMPLANTADO EM UMA CIRURGIA?

  1. via disse:

    Concordo com a opinião do colega Dr Carlos Bezerra. Realmente os materiais utilizados nas cirurgias tem acessórios diferentes e qualidade diferente também, que podem influir no preço deste material. Sabemos que os materiais mais baratos, nem sempre tem a mesma qualidade. Isto leva a escolha pessoal do médico por produtos que possam lhe trazer melhor resultado em sua cirurgia.

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