É SEMPRE POSSÍVEL FAZER MAIS PELOS NOSSOS PACIENTES

É possível fazer mais pelos nossos pacientes!

 Às vezes eu discordo do comentário de algum colega médico postado na internet, na midia impressa ou mesmo em programas de televisão. Em geral me calo porque não gasto muito tempo pensando naquilo e imagino que minha opinião oposta pode ser apenas uma problema de ego; meu. Por isso, desculpo-me antecipadamente pela intromissão na coluna do Dr. Drauzio Varella e apresentar um ponto de vista oposto ao seu artigo escrito no último dia 23 de abril no caderno Ilustrada da Folha de São Paulo. Como é um texto público, acredito que muitos tenham lido e talvez concordem ou não com o autor.

Segundo o autor, a questão da vida saudável transforma o médico em um defensor involuntário da moral e dos bons costumes desviando da sua missão de aliviar o sofrimento humano. E ainda, toda humanidade se comporta mal porque os índices de obesidade estão aumentando no mundo todo, a despeito das informações. E mais, ele se sente como um sacerdote ditando comportamentos diante da igreja surda. Baseia-se para tal em pesquisas sobre o aumento de prevalência da obesidade, em citações de casos que vivenciou no seu trabalho e na própria idéia que defende: A ciência médica moderna deveria abandonar a ficção ridícula de transformar seres humanos preguiçosos, compulsivos, cheios de defeitos e vícios que prejudicam o organismo, em rebanhos de cidadãos bem comportados que passem a existência dedicados a cuidar da saúde acima de tudo, porque sempre haverá aqueles que acharão sem graça viver dessa maneira.

No cerne do problema está o comportamento das pessoas diante dos vícios de comer inadequadamente, fumar, consumir drogas e mais outros tantos. O autor revela um desconsolo com a repetição interminável de orientações sobre o que é ou não é correto fazer para controlar os problemas de saúde em face da falta de determinação ou busca de soluções alternativas que os pacientes adotam.

Pois eu declaro que me sinto de forma radicalmente contrária. Quando assumi o papel de médico, assumi também uma responsabilidade. Para mim, por ser conhecedor das doenças e das causas e tratamentos, será sempre o meu dever informar àqueles que vêm me consultar qual é a orientação que aprendi com meus estudos. Cabe a ele (paciente) decidir o que vai fazer com a informação. E, mesmo que às vezes eu me sinta desanimado com o insucesso, continuarei a oferecer a informação que disponho. Por outro lado, busco aperfeiçoar-me. E, no meu caso específico, sendo um professor universitário e pesquisador, busco contribuir para o desenvolvimento de novos tratamentos.

Com esse raciocínio em mente, eu gostaria de oferecer ao meu colega algumas idéias alternativas. Ao invés de abandonar a luta por fazer os pacientes adotar comportamentos saudáveis eu busco informações sobre as causas da manutenção dessa atitude danosa. E já encontrei muitas idéias. Sabemos que algumas tendências comportamentais tem origem genética e outras têm origem nas vivências que os seres humanos têm no seu meio ambiente atual ou na infância. Psiquiatras, Psicólogos e Neurocientistas nos oferecem cada dia mais informações nesse campo. Acho natural que a criatividade humana encontre soluções mais depressa no mundo leigo que, livre do compromisso acadêmico, caminham por tentativa e erro. Nesse campo, experiências positivas de associações como a dos Alcoólicos Anônimos e de Comunidades Religiosas ou de Apoio Humanitário têm seu valor da mesma forma que a fitoterapia ajuda na farmacologia. Mas isso não impede que um profissional busque as informações científicas, aperfeiçoe-se e ofereça aos seus pacientes novas soluções. Sendo assim, talvez o policial ou a presidiária que são citados no artigo, pudessem ser tratados com recursos adicionais (e hoje existem muitos) além da palavra do médico e de medicamentos.

É uma forma diferente de ver o mesmo problema. O papel do médico nunca foi somente o de prescrever medicamentos ou realizar cirurgias curadoras. Na faculdade tivemos aulas de psicologia, noções de psiquiatria, e aprendemos a identificar fatores de risco. Se o comportamento do indivíduo é um fator de risco para o desenvolvimento das doenças, precisamos aprender como ajudá-lo a mudar esse comportamento. No mundo executivo isso já existe. Há muito tempo surgiram os primeiros trabalhos da psicologia desenvolvidos para treinar comportamentos e habilidades como liderança e construção de equipes de trabalho. Diversas ferramentas como “coaching” executivo e teoria do eneagrama são hoje aplicadas nas empresas para mudar comportamentos nocivos no trabalho. Na medicina, começam a surgir técnicas semelhantes como o “Coaching de Saúde” desenvolvidos na Austrália e nos Estados Unidos. Isso sem falar nas diversas técnicas de terapia. A participação em equipes multidisciplinares e o encaminhamento a outros especialistas deve fazer parte dos recursos utilizados pelos médicos. Portanto, o médico tem muito mais a fazer pelos seus pacientes. Basta que busque a informação, obtenha um aperfeiçoamento e aplique os recursos na clínica cotidiana.

Sendo assim, apesar de respeitar a opinião do meu colega, eu ofereço um outro ponto de vista a vocês por que entendo que é possível fazer mais.

Carlos Alberto Bezerra

Esse post foi publicado em Área Médica, Nossas Notícias, Pensamento Médico, Reportagens comentadas e marcado , , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para É SEMPRE POSSÍVEL FAZER MAIS PELOS NOSSOS PACIENTES

  1. Parabéns, Dr. Carlos! É preciso coragem para filtrar e contestar o que recebemos de informação, independentemente da origem. Como eu sempre digo, não acredite em ninguém, nem mesmo em mim, se você não entender aquilo como prático para você.
    Um abraço e sucesso!
    Jeronimo
    Seu amigo de Coaching (ICI)

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s