O ERRO MÉDICO

Tenho visto notícias na mídia sobre o erro médico. Nos blogs dos grandes jornais, logo após as notícias, seguem-se comentários dos leitores sobre o fato.

A última notícia me fez refletir a respeito: um médico reoperou uma paciente que tinha sido operada por ele mesmo anos antes, porque descobriu que havia sido esquecida uma pinça hemostática na cavidade abdominal. A pinça foi removida e ao que tudo indica a paciente passa bem e agora exige indenização.

Mesmo a simples prescrição de uma receita pode estar errada!

A leitura dos comentários demonstra muita coisa. Pessoas revoltadas com o fato. Pessoas com compaixão pela paciente. Pessoas condenando e já sentenciando o médico. Pessoas tentando oferecer um comentário lúcido e até uma pessoa que, ao que tudo indica, conhecia o médico e o defendia, clamando que o perdoassem tendo em vista as inúmeras outras vezes que sua competência tinha sido evidente, segundo informou.

Sendo médico, um sentimento estranho tomou conta de mim e busquei orientação interna para tentar analisar esse fato com a melhor lucidez possível.  Há que se lembrar de duas premissas:

  • O médico não pode errar. Quando ele erra, quem sofre mais é sempre o paciente.
  • 

  • O médico não é infalível. Portanto ele pode errar, como qualquer ser humano.

O verbo “poder” tem conotação diferente nas duas frases anteriores: na primeira é “proibido” ; tem que colocar o máximo empenho possível para evitar errar; na segunda, é “possível”;  sabe-se que mesmo o maior perito está sujeito a errar um dia.

Observamos que essas duas premissas são conflitantes. Ninguém quer que o erro aconteça, mas ele acontece. Médicos e pacientes já sabem disso. E assumem riscos. O médico, ao escolher sua profissão, assume o risco de falhar um dia e deve lutar por toda a sua vida para evitar errar, ou, se errar, que as consequencias sejam mínimas possíveis para o outro. O paciente, que tem uma doença que exige auxílio médico, assume o risco de que o profissional escolhido para cuidar de si possa se enganar e lhe causar um mal. E deve buscar sempre as melhores condições de assistência e de preferência ouvir mais de uma opinião para diminuir esse risco.  Assim, sabemos que o erro médico faz parte da medicina e tem essas características imutáveis, por mais doloroso que seja.

Independente deste fato uma outra questão é evidente:  o que devemos fazer quando um erro médico acontece?

Primeiro, quanto ao médico. O que fazer com o profissional que erra? Punir? Qual deve ser a intensidade dessa punição? Como escolher uma punição correta? Ou não deve-se punir, tendo em vista que o erro é inerente aos seres humanos? Não tenho a melhor resposta. Apenas acho que a punição fará com que o médico redobrre sua atenção e seus cuidados para evitar problemas futuros e portanto acredito que ela tenha que existir. O tamanho da punição dependerá de inúmeras outras condições como ser ou não a primeira vez; concorrência ou não de atitudes e comportamentos inconvenientes por parte do médico como imperícia, imprudência ou negligência; antecedentes; atenuantes e agravantes.  Deus me ajude para nunca estar em posição de ter que julgar ou de ser julgado. 

Segundo, quanto ao paciente. O que deve ser feito pelo paciente? Reparar o dano causado, lógico. Indenização financeira ou restituição dos gastos com o tratamento? Ajudá-lo a perdoar?  Ou instigá-lo a revoltar-se e partir para um “revide”. Penso que o paciente deve ter todo o apoio que precisar, seja ele físico, financeiro ou emocional.  Mas sei que algumas vezes não há o que reparar para o paciente, tendo em vista que o dano pode ser irreparável.  Perdoar, é um valor superior que existe dentro de todos nós, mas que nem sempre se exterioriza. Assim, entendo que o paciente deve ser apoiado pela justiça. A dimensão desse apoio é assunto para especialistas.  

Diante dessas reflexões, percebo que não existem respostas únicas, definitivas e consensuais. Encontro conforto apenas dentro de minha alma, que sabe o imenso  prazer que sinto quando percebo a ajuda que consegui oferecer aos meus pacientes e a profunda e contínua sensação de medo de errar, que embora não me paralise, me faz cercar-me de máximo cuidado para não prejudicar ninguém . Se um dia falhei ou falharei eu não sei. Mas vou fazer sempre o melhor possível e não desistirei da minha profissão.

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